quinta-feira, 10 de maio de 2018

Um Conto Doce


Um conto doce
Márcio Barker


Sabem? Quando eu era criança, morei numa casa bem grande. O quintal era maior ainda.
Nele, fazia minhas peripécias, com meu triciclo. Fazia estradas também, cavando na terra. Meus carrinhos e caminhões faziam velozes viagens por aquelas auto estradas que eu abria.
Nos finais de tarde, juntava um monte de passarinhos, periquitos, maritacas, papagaios. Tinha desde o vagabundinho pardal, até canários, rolinhas. Eu gostava de todos. E eles ficavam lá, conversando, discutindo, falando.
Metido, me intrometia na conversa deles. Sim, porque eu falava, e muito bem, o “passarinhês”, o “periquitês” e o “papagaioês”. Dava palpites, fazia graça, contava histórias.
Mas não era só o “passarinhês” que eu sabia falar. Ah! Sim, dominava também o “minhês” e o “Auauês”. Sim, claro, porque se não, como poderia conversar com o gato e passava por alí, todos os dias, e com os cachorros da vizinhança?
Lembro do gato, ficava me dizendo como são longos os muros dessa vida. E, o cachorro sempre ponderava dizendo, “ao menos você tem longos muros para percorrer”.
Era uma farra. Eu, de calças curtas, sentado no chão, ouvindo, e contando histórias...engraçadas...coloridas
Meu pai, biólogo e veterinário insistia em dizer que os bichos não pensam. AH!AH!AH! Será que ainda tem veterinário que acredita nisso? Eu nunca acreditei, pois os bichos até falam!!!
A noite, montava meu trem elétrico. Apagava as luzes na sala, e punha ele pra andar. O farol do expresso iluminava a sala. Eram imensas florestas com bichos misteriosos, fantasmas e sombras estranhas. Eu gostava de conversar com as corujas, daquelas florestas.
Um dia, lá no quintal, percebi que alguém me observava. Olha só! Era um pássaro maior, todo cinza, com uma mancha amarela na cabela.
Olhou muito sério para mim, e foi dizendo - “Espero que você nunca esqueça da linguagem dos bichos. Será importante para você.” Se virou, e foi embora. Nunca o tinha visto. Nunca mais eu o vi.
Daí, eu cresci. É....que coisa! Tive que aprender outras linguagens, inclusive a língua dos humanos. Aprendi o português, aprendi a falar em “adultês”, também um tal de “economês”, que fala de dinheiro, e que nunca gostei. Aprendi ainda, imaginem, a falar o idioma do coração...seria o “mulherês”? Também o “diplomatês”, a linguagem dos educados....nunca fui muito educado, mas...tive que aprender um monte de outras linguagens.
E a vida foi passando. Um dia, descobri que estava ficando velho. Bem, coisa normal, mas continuei gostando ver o Sol ir se deitar, ver a Lua ir surgindo, e as estrelas pouco a pouco aparecendo. Pois é, tem coisas que a gente não esquece, que continua gostando.
Numa dessas tardes, eu olhava o céu azul ficar vermelho. Antes eu imaginava que era um mágico que fazia isso. Depois descobri que não passa de um fenômeno atmosférico. Mas sabem? Cá entre nós, eu continuo achando que é um mágico que vai pintando o céu. Acredito nisso, mesmo!
Bem, e estava vendo os pássaros. Rolinhas, pardais, bem-te-vis, periquitos, maritacas, papagaios. Ah, sim. Também escutava os cachorros latindo, e via um gato passando suavemente. Eu não escondia um sorriso de felicidade.
Nisso, percebi que alguém me observava. Olhei, e vi um pássaro grande, de olhar sério. Era cinza, com uma mancha amarela na cabeça.
Num vôo rápido, chegou mais perto, e disse - “Espero que você esteja entendendo toda essa conversa aí, nas árvores. Tomara que você ainda saiba falar o idioma deles. Que converse com eles. Tomara que não tenha esquecido. Por favor, não esqueça, pois são os idiomas de sua infância....não esqueça do garoto que foi....e quem sabe ainda seja. Vai ser bom para você.”
Levantou vôo, e foi embora.
Não, meu pássaro, eu não esqueci...nunca esquecerei.

Imagem /www.pinterest.pt

terça-feira, 24 de abril de 2018

Frustração


Frustração
Márcio Barker



Vou confessar uma coisa. Sabem o que?
Eu gostaria de ser um vagabundo!  Pois é. Isso mesmo, um vagabundo.
Mas não um vagabundo largado, abandonado, idiotizado, perdido.
Não! Não!
Um vagabundo sim, mas com classe.
Aquele vagabundo elegante, perfumado, que usa desodorante, penteado, barba bem escanhoada.
Um vagabundo culto, bom de papo, conversa cativante, olhar sedutor, gestos finos, marcante.
Um vagabundo meio errante, apenas vivendo a vida que ganhou, não sei de onde, ou  de quem.
Um vagabundo que não se importa com o amanhã, que ri do passar do tempo, que dá de ombros às tristes e tolas ansiedades do contidiano.
Eu gostaria muito de ser um vagabundo, que caminha por aqui e por aí, sobrevivendo graças a pequenos golpes indolores.
Aquele vagabundo que cala a boca da consciência, manda o relógio às favas, que pisa nas reprimendas.
O vagabundo que sorri, e se alegra de ter vivido mais um dia, e não ter dado bola para o pecado, e quem inventou o pecado.
Gostaria de dar voz a esse vagabundo que está escondido não sei onde, dentro de mim.
Um vagabundo sem ninguém, sem preocupação, sem paixões tolas, sem aflições inúteis.
Eu gostaria de ter prá mim, e em mim, esse vagabundo...
Mas, pobre de mim, pois até para ser um vagabundo tem que ter classe, ser competente...mas eu não fui, nem sou competente.
Sim, pois é necessário  muita competência, para ser livre...como esse vagabundo que sonhei...
Que pena!!!

Imagem de Antonio Benni

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Nossa! É cavalo prá burro!!!


Nossa! É cavalo prá burro!!!
Márcio Barker


Quando pequeno, eu olhava pra ele com admiração!!! Sim, muita admiração. Não só porque eu o achava bonito, mas pela sua postura nobre.
Alí estava ele, calmo, sereno em sua elegância. Me impressionavam seus olhos, sempre absolutamente tranquilos. Ora em forma de tranças, ou aparada bem curta, ou totalmente solta, a longa cabeleira esvoaçante, dava a ele a figura da liberdade
Menino ainda, toda manhã, eu escutava a campanhia de casa. Já sabia!!! Era o padeiro. Saía atrás de minha mãe. Lá estava a maravilhosa carroça repleta de filões, roscas, pães doces, e sei lá mais o quê. Duas coisas me chamavam a atenção, o cheiro delicioso do pão, e o cavalão, calmo, indiferente, sossegado, lá na frente.
Não podia deixar de chegar perto. Passava ligeiramente minha mão, em sua cabeça. Eu sério, ele sério. Eu sorria e, ele, sério. Gostava de seus olhos, de sua calma, de sua finesse.
Mais tarde, escutava o “tilim-tilim” da carroça do leiteiro.
Márcio, vai lá, e pega três litros”.
Enquanto o leiteiro tirava os três litros, lá estava eu afagando a cabeço do seu cavalo.
Eram muitos os cavalos de minha infância, apesar de ser eu, um paulistano.
Era a carroça do jornaleiro, do verdureiro, do lixeiro, com uma parelha de cavalos. O trabalho era sujo, mas os cavalos mantinham sua dignidade e elegância.
Perto de casa, havia o elegante Joquei Clube, onde elegantes trouxas que apostavam em cavalos atletas.
Durante a semana, tratadores dos cavalos, os levavam a trotar um pouco, perto de casa. Eram lindos. Brilhantes, elegantes bem tratados e fortes.
Numa manhã, toca a campanhia. Era o padeiro. Corro para pegar os pães, e ver o cavalo. Mas quanta tristeza. Todo sorridente, o padeiro mostra sua pequena perua, para entregar os pães. Mas...e o cavalo? Não estava mais lá.
E assim foi com o jornaleiro, verdureiro, leiteiro e lixeiro. Meus heróis elegantes se foram. Eu cresci numa cidade que trocou seus cavalos por máquinas. Até o Jóquei Clube virou história. É o progresso.
Cresci, fiquei moço, adulto e, agora, velho. E nunca mais soube de qualquer cavalo.
Outro dia viajei para Guaratinguetá. Daí, me contaram que no mês de abril, homenageam São Benedito, com várias festividades. E, para meu espanto e entudiasmo, dentre elas, está a cavalaria de São Benedito.
Me contaram que mais de mil cavalos fazem parte desse desfile.
Fui ver.
Alí, diante de eu nariz, passaram cavalos e mais cavalos. Cavalos marrons, pardos, brancos, malhados, pretos, marchadores, trotadores, manga largas, e até pangarés, os meus preferidos. Pois pagangarés, eram os do leiteiro, verdureiro, jornaleiro, padeiro. Mas todos lindos, exuberantes, elegantes, calmos, serenos, no seu trotar.
Quis entrar no meio, passar a mão neles. Mas fui contido. O cheiro me lembrou das exposições de bovinos, ovinos, suínos e equinos, que, meu pai biólogo e veterinário, me levava para ver. Pequeno, me enfiava no meio dos Zebús, de corcova, lindos e elegantes. Corria entre eles, os cumprimentava, falava algo, e continuava, para desespero, de minha sempre desesperada mãe.
Mas, eu preferia mesmo, eramos cavalos. No seu caminhar lento e tranquilo, ou na sua corrida desenfreada pelo mundo, e vida a fora.
Os cavalos de Guaratinguetá me trouxeram tudo isso de volta, aliás, nem reparei nos cavaleiros. Eles eram de menos. Para mim, valia, sim, a figura altiva, de força e elegância, dos cavalos de Guaratinguetá.
Eu cavalguei com eles, de volta a minha doce infância.
Parabéns a vocês, cavalos desta e de outras vidas.
Puxa vida!!! Nunca tinha visto tantos cavalos!!!!

(Escrevi esse conto para minha querida amiga, Lilian Nogueira, de Guaratinguetá, SP. A você, um beijo)


Foto de Gisela Nogueira.