segunda-feira, 18 de março de 2013

O chato

O chato - Márcio Barker


Domingo à tarde. Daí, aos pouquinhos, um monstro vai tomando conta de você. O monstro da pré-segunda-feira. E não há domingo que resista. Seja chuvoso, radioso, horroroso ou maravilhoso, não adianta: domingo não passa de uma tenebrosa véspera de segunda-feira. Bem, não falo por todos, falo por mim.
Daí relaxado num sofá, após um café-com-leite-pão-manteiga-queijo, fica-se pensando na vida, tentando esquecer a bendita segunda-feira. “Bendita” é modo de dizer, não é?
Então, como se não bastasse, de repente, não mais que de repente a companhia o anuncia. O sexto sentido denúncia: é ele quem aparece!!! Sim! O perfume logo o denuncia. É forte, doce e impregnante. Se espalha pela suas roupas, pela mão direita. Outro indício: o abraço demorado e forte, tipo “quebra costela” e o bafo na orelha. E, se houver beijo, é do tipo bem babado. Ele sempre chega de repente, de imprevisto, nas piores horas. Camuflado, não há como esgueirar-se de sua chegada. Sempre temida...sempre repentina. Uma vez instalado num belo sofá, raramente se apercebe do passar do tempo. Já se acostumou a isso, pois faz tempo que se aposentou. Parece ter uma bunda de chumbo, pois nunca se levanta. O fôlego é infinito, pois desconhece a boa utilização do ponto e da vírgula. Fala sem parar. Assuntos? Iinfinitos! Graça? Só das próprias piadas, geralmente infames.
Os olhos irrequietos e ziguezagueantes são o “pano de fundo” da verborragia sem fim. Fala de pneus a remédio para coriza; de arroz doce a de gatos; do fulano que morreu atropelado a sua camisa que ele achou ridícula; do clube familiar de fim de semana a mãe dele que tem noventa e cinco anos, e é uma gracinha; de supositórios aos lançamentos dos carros do ano; da última operação...e por aí vai.
Durante seus monólogos regados a perdigotos, enquanto a mão direita busca freneticamente os botões da camisa do interlocutor, a esquerda divaga livremente pelo próprio bolso da calça. Usa relógio, mas nunca o consulta.
Aceita cafezinho, almoço, lanche e janta. Não contente sempre “agradeceria uns pastéizinhos, ou biscoitos amanteigados”. Pródigo em comentários infames expõe a falta de tato, delicadeza e sobriedade. Gargalhadas imensas colocam a nu sua suscetibilidade ao humor de gosto duvidoso. Mas o pior é que essa gente é sempre do tipo “boazinha” . Por mais que você queira fazê-lo em picadinhos, empalá-lo (sem vaselina) escalpelá-lo ou afogá-lo com requintes de crueldade, não podemos nos dar a esse luxo.
Pior, é indiferente a indiretas, não entende brincadeiras sobre o tardar da hora, é surdo quando o mal humor da vítima já se faz bem visível. Não percebe o olhar furioso de saco cheio do pobre interlocutor,
E o mais trágico está por vir, já são quase meia-noite, e o camarada está lá desde a manhã. Não dá sinais de se levantar, nem se despedir da pobre vítima, já quase morta de sono, tonta de tanta besteira que escutou e...bem visível, logo ali, do lado do impiedoso relógio, o rosto diabólico da segunda-feira sorrindo maldosamente para a pobre vítima.
Meu Deus, o que fazer? Simples, no próximo domingo desligue a companhia...de casa. Às vezes é tão fácil ser feliz...
Alguém tem outra sugestão?

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